Comentando a notícia recente sobre neutrinos mais rápidos que a velocidade da luz com alguns colegas no trabalho, me vi na ingrata posição de ter que explicar alguns conceitos de física quântica, tarefa bem complicada considerando que eu mesmo não compreendo muita coisa do assunto. O problema maior é que muitos desses conceitos são contra-intuitivos; estamos acostumados a lidar com coisas da mesma escala a que pertencemos e tentamos enquadrar nosso raciocínio nesses termos, mas quando a escala é subatômica as regras são diferentes e as analogias que tentamos fazer não só não esclarecem como confundem ainda mais as coisas. Um exemplo famoso (pelo menos entre nerds) é o experimento do gato de Schrödinger.
O interessante é que não precisamos chegar a níveis quânticos para conceber conceitos que nossos cérebros sejam incapazes de processar. Algo muito mais comum e corriqueiro, aceito como verdade durante séculos e usado diariamente por todos é tão contra-intuitivo quando o entrelaçamento: o número zero. Por estarmos acostumados com seu uso, podemos achar que o conceito de zero nos é familiar, mas basta pedir para alguém explicar porque um número elevado a zero é igual a um que percebemos que na verdade não entendemos direito nem mesmo matemática elementar.
Essa falta de compreensão do número zero, em minha opinião, é derivada de uma incapacidade que temos de perceber neutralidade. Temos uma tendência natural para a dualidade, classificamos tudo em pares opostos: claro e escuro, calor e frio, alto e baixo, bem e mal, amor e ódio. Em muitos casos, sequer temos uma palavra específica para o meio-termo, usamos o genérico “médio” para a maioria das graduações. Isso nos faz perceber o mundo de maneira muito limitada, além de levar a decisões arbitrárias e irracionais. Por exemplo, somos praticamente incapazes de assistir a algum evento esportivo ou competição de qualquer tipo sem tomar partido e escolher um dos lados para torcer, muitas vezes usando critérios absolutamente irrelevantes, como a cor do uniforme dos atletas, para guiar a decisão.
No entanto, não tenho certeza do motivo para esse comportamento. Talvez seja algum subproduto evolucionário; afinal, é muito mais simples e seguro assumir a postura “se você não está comigo, está contra mim” do que tentar criar um grupo para “indiferentes”. Quem sabe indivíduos com maior tendência à neutralidade tenham uma menor vantagem evolutiva (embora eu não imagine como) e deixem menos descendentes. Mas isso são apenas especulações; o fato que permanece é que ainda terei que aturar muito olhar incrédulo quando disser que não torço pra time nenhum.