Nunca fui fã do programa Pânico na TV. Para falar a verdade, nunca assisti um episódio sequer; o tipo de entretenimento a que se propõem não me atrai e prefiro usar meu precioso tempo jogando videogames ou assistindo anime. Por isso, não dei muita bola quando fiquei sabendo que eles “invadiram” o funeral da Amy Winehouse, já que fazem isso o tempo todo e, aparentemente, seu público acha isso muito engraçado. Mas, desta vez, críticas e mais críticas começaram a pipocar, alegando que eles teriam “faltado com respeito” pela falecida. Acho isso curioso, por dois motivos: primeiro, a morte de qualquer celebridade já é um circo de qualquer maneira, explorado até a medula por todos (tanto que até venderam ingresso pro funeral do Michael Jackson) e ninguém acha isso errado; segundo, todos batem palmas quando eles fazem o mesmo em outros eventos, muitas vezes constrangendo diversas pessoas, mas se ofendem se o alvo é alguém que já está morto e, nessa condição, se importa bem menos com a brincadeira do que as vítimas vivas.
Toda essa introdução foi só para dar contexto a uma das críticas que li sobre o fato no Twitter (via @Cardoso). Alguém alegou que o programa deveria sair do ar porque não tem “nenhum acréscimo sociocultural”. Como se programas de televisão devessem ter algum “acréscimo sociocultural” além de entretenimento. Será que essa pessoa assiste a novelas, futebol, humorísticos, reality shows e outros com bem menos “acréscimo sociocultural” que o Pânico (que, no mínimo, dissemina gírias e expressões, que são uma forma de expressão sociocultural), ou será que sua vida repleta de contribuições importantes à sociedade não tem espaço para tais futilidades?
Curiosamente, esse ano não vi muitas críticas ao concurso Miss Brasil, notório alvo da patrulha do politicamente correto. De qualquer maneira, existe um forte preconceito que relaciona beleza com futilidade que eu considero pura hipocrisia e despeito. Afinal, ninguém quer ser feio, ou ter um parceiro e, por conseqüência, uma prole feios. A reação mais comum a quem não tem uma aparência mais privilegiada é racionalizar para se sentir superior em outros atributos que não os físicos, normalmente atacando a moral ou o intelecto do alvo de sua inveja e arrotando que “beleza é fútil”. Só não sei por que uma característica genética que faz alguém nascer com atributos mentais acima da média deve ser considerada superior à que faz alguém nascer com feições apreciadas pelos membros do sexo oposto, nem que tipo de raciocínio leva as pessoas a acreditarem que essas duas características são mutuamente excludentes.
Outro evento que foi alvo de críticas recentemente foi a Marcha da Maconha. Sem entrar na questão da liberação em si (que é assunto para um post inteiro), um dos principais “argumentos” dos detratores do movimento era de que havia “coisas mais importantes” para se protestar, e que os manifestantes deveriam se preocupar mais com tais problemas. Ou seja, além de expor sua arrogância sem tamanho ao sugerir que todos deveriam ter a mesma percepção de prioridades que a sua, o pseudomoralista ainda se confessa acomodado e preguiçoso, já que não está protestando pelas causas que considera tão importantes.
São só alguns exemplos, mas temos demonstrações diariamente de como as pessoas desprezam aquilo que consideram fútil, por algum motivo incapazes de serem apenas indiferentes. Na visão tacanha de mentes medíocres, ser fútil (em sua opinião, obviamente) anula toda e qualquer qualidade que determinado evento, atividade ou tema possa ter, é o crivo supremo que separa aquilo que é digno de sua devoção daquilo que deve ser odiado e exterminado. Ironicamente, os que carregam o manto dessa inquisição de idéias, patrulhando a vida alheia com espadas de desdém, são os que os que menos fazem e têm menos importância na sociedade.
Mas ser ou não fútil, assim como tantas outras coisas, é completamente subjetivo. Na verdade, do ponto de vista niilista, toda a existência é fútil. Se nada do que fazemos é intrinsecamente importante, cabe a cada um de nós determinarmos o que priorizar em nossa breve estadia neste planeta e agir de acordo com esses princípios. Alguns se propõem a trabalhar em prol do desenvolvimento da humanidade, outros preferem se concentram no bem estar próprio e de seus entes próximos; não vejo problema em dar importância a o que quer que seja desde que se mantenha a sinceridade quanto a isso. O que me incomoda são os hipócritas que usam a falácia da futilidade para fazer pouco-caso das preocupações ou da diversão dos outros, sendo que eles mesmo não agem conforme aquilo que alegam ser importante.
Além do mais, não tem nada de errado em ser fútil de vez em quando. Ninguém vive o tempo todo em função de seus objetivos e ideais, e todos precisamos de algo totalmente trivial para relaxar um pouco. Afinal, importante mesmo é aproveitar a vida enquanto ela dura.

