Eu acho curioso como alguns dos conceitos considerados mais “nobres” pelos seres humanos vão totalmente de encontro com a própria natureza da existência. Ideais almejados por todos que, se fossem alcançados, resultariam na total aniquilação de nossa raça, e por isso mesmo são inalcançáveis. Acredito que o mais contraditório desses ideais seja o desejo pela paz.
A paz não existe na natureza. São as violentas reações nucleares dentro do sol, gerando turbilhões caóticos de energia, que permitem que a vida exista em nosso planeta. Vida que, através de incontáveis gerações de conflitos, lutas e disputas, evoluiu até gerar nossa espécie. Mesmo antes de nascer, cada indivíduo tem que vencer uma corrida frenética para fecundar o óvulo e vir ao mundo. É assim que as coisas são; a paz só existe no nada, na ausência de tudo. Ainda assim, todos desejam a paz, mesmo que no fundo saibamos que a vida é feita de conflitos.
O problema é que em geral os conflitos geram resultados negativos para todas as partes envolvidas. Mesmo que seja a única solução possível para uma situação, raramente qualquer uma das partes, mesmo a vencedora, emerge ilesa de uma disputa. Como nosso instinto de autopreservação nos impele a evitar qualquer tipo de ferimento ou sequela, é natural que desejemos eliminar situações de conflito ao máximo. Mas conflitos, como mudanças, são inevitáveis.
É claro que não quero defender que todos os conflitos são legítimos. Pelo contrário, a maioria é idiota, muitos poderiam ser evitados sem maiores prejuízos se os seres humanos não fossem tão incompetentes em se fazer entender uns aos outros. Mas será que, mesmo com nossas aspirações pacifistas, temos sequer condições de conceber um mundo sem conflitos, onde tudo pode ser resolvido com diálogo? A enorme variedade de pessoas, cada uma com suas idéias, valores e vontades, pode realmente coexistir sem conflitos? A existência de um único sociopata, de um sádico ou um fanático, enfim, qualquer pessoa que tenha uma índole voltada para a violência, coloca por terra esse ideal tão almejado, e pessoas assim sempre existiram e sempre existirão.
O desejo pela paz não é apenas utópico, mas também nocivo. Em nome da paz, as pessoas sacrificam sua liberdade, seus desejos, suas crenças e valores, e até mesmo suas vidas. Para evitar conflitos, as pessoas se submetem aos caprichos de tiranos e agem conforme a vontade de opressores. Para obter uma paz que, na melhor das hipóteses, será apenas parcial e efêmera, as pessoas sucumbem ao medo.
“Paz sem voz não é paz, é medo”
- O Rappa, Minha Alma
Não devemos temer conflitos, e sim encará-los como oportunidades de crescimento e fortalecimento, pois essa é a natureza de nossa existência. Enquanto houver indivíduos, cada um com seus objetivos e prioridades, nunca haverá uma paz verdadeira. Podemos até almejar por períodos de tranqüilidade, mas devemos estar preparados para quando a hora da batalha chegar.
